16h29

ABM declara apoio à estudante de Medicina Carolina Adan

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A Diretoria da Associação Bahiana de Medicina declara total apoio à estudante de Medicina Carolina Adan, que, na sua página do facebook, comentou, indignada, argumentos publicados por um professor de um colégio baiano, que comparava médicos brasileiros aos cubanos. A ABM coloca-se à disposição de Carolina Adan para o que for necessário.
 

Leia o texto publicado por ela: 

Hoje à noite, estava olhando o meu feed de notícias e tive a infelicidade de ler um post do professor da disciplina de História do Colégio xxx, xxx, falando mal dos médicos brasileiros e elogiando o governo do PT. Fiquei indignada por ter lido um texto tão supérfluo e sem fundamentos, e decidi responder educadamente. Ele então apagou o meu comentário e me bloqueou do seu Facebook, demonstrando como aceita opiniões divergentes e como está aberto a discussões com seus alunos. Como não pude expor a minha opinião aos colegas, deixo a mensagem aqui abaixo:

Professor, gostaria de expor a minha indignação diante do seu texto. Fui aluna do xxx e tive a felicidade de ter professores excelentes. Por outro lado, tive a infelicidade de ter professores formadores (manipuladores) de opiniões, esquerdistas de carteirinha, que proferiam discursos no mínimo absurdos, os quais éramos obrigados a ouvir. Havia aqueles colegas que utilizavam-nos como exemplo, porém havia outros que sempre perceberam que havia algo de errado. Sempre acreditei que um professor, sendo formador de opiniões em massa, deveria ser o mais imparcial possível, mostrar os dois lados da moeda, e fico feliz de ter tido muitos exemplos como esse. O que vejo no seu texto, no entanto, é exatamente o oposto. Tive a infelicidade de me deparar com as informações proferidas pelo senhor, uma espécie de conjunto de distorção absurda da realidade, algo que eu diria ser diametralmente oposto ao que acontece no nosso país atualmente. Diante disso, gostaria de fazer alguns comentários. Primeiramente, o senhor disse que os cubanos são melhores, pois são formados sob um ótica preventiva. Estudo Medicina e posso lhe afirmar: nós somos formados sob a ótica preventiva. Temos disciplina de saúde coletiva durante quase todo o curso e, no internato, participamos do Programa de Saúde da Família (PSF), um programa 100% preventivo, inclusive com visitas domiciliares (sim, nós andamos nas comunidades, de casa em casa). Fazemos ações de educação em saúde, ensinamos sobre a importância do cuidado em saúde, fazemos oficinas de tira-dúvidas, entregamos folhetos informativos.. Isso não parece tão "cubano"? Nós fazemos isso aqui na capital mesmo! Temos também as disciplinas de Bioética e Ética Médica, e posso lhe afirmar que somos ensinados a ter comprometimento com a ética da nossa profissão. A beneficência, a não-maleficência, a autonomia, o respeito, o sigilo. Em segundo lugar, o senhor disse que a anamnese é respeitada em Cuba, e aqui não. Isso é no mínimo um absurdo. Existe uma disciplina chamada Propedêutica Médica, mais atualmente chamada de Semiologia Médica, onde aprendemos a fazer anamnese e exame físico da forma mais detalhada possível. Nessa disciplina, nós atendemos os pacientes e, ao final da consulta, preenchemos cerca de 5 ou 6 páginas no prontuário, apenas com anamnese e exame físico. Será que realmente não respeitamos a anamnese? Será que deixaríamos de respeitar aquilo que nos dá 90% do diagnóstico do paciente? (Sim, apenas 10% dos diagnósticos são dados com os exames complementares). Ninguém aqui nesse "grande centro urbano" é acostumado com exames complexos. Não sei de onde essa informação surgiu, mas é algo que não está de acordo com o que acontece com quem vive e faz a Medicina nesse país. Tenho um professor de dermatologia que te diz o que você tem antes mesmo de você se sentar na cadeira. E ele não precisa de nenhum "exame complexo" para isso! Os "médicos dos grandes centros urbanos" também trabalham nos hospitais públicos e também veem seus pacientes morrendo. Morrendo não por falta de vontade, nem por preguiça. Morrendo por falta de meios. Por falta de medicamentos. Por falta de tratamento adequado. Ninguém deixou de fazer anamnese. Todos fazem a anamnese. Mas de que adianta fazer a anamnese e, no momento de iniciar os planos diagnóstico e terapêutico, não ter o que fazer? Estamos de mãos atadas. Em terceiro lugar, os médicos cubanos não vieram dispostos a ocupar lugares "abandonados pelos nossos doutores". Os médicos cubanos vieram para o Brasil numa situação oportuna, para trabalhar por um mísero (e vergonhoso) salário e fugir de um país ainda pior. Estão pedindo asilo político no nosso país. Será que eles vieram pra cá tão felizes assim? Não diga que nossos médicos temem a falta de equipamentos e que sem eles não conseguem diagnosticar. Vivencie um pouco o Sistema de Saúde do nosso país e o senhor entenderá. Vivencie 6 anos de faculdade e mais 4 ou 5 anos de residência, estudando, dando plantões, virando noite, passando 24, 48, 72 horas sem o conforto da sua cama, sem dormir, sem fechar os olhos, sem comer, sem tomar banho. Vivencie o seu esforço de tentar atender um paciente da melhor forma possível e ser impedido pois não há remédios, ou não há leitos, ou não há estrutura. Vivencie o HGE, Hospital Geral do Estado, fechando as portas para pacientes com AVC ou infartando porque não há mais macas. Vivencie um paciente morrer dentro de uma ambulância, nas cidades do interior, aguardando regulação para a capital. Vivencie um paciente ser salvo por uma enfermeira, que percebeu que havia algo de errado com a prescrição feita por uma cubana. Vivencie um paciente morrer na sua frente devido à precariedade do sistema. Não é isso que um médico digno merece. Isso é FALTA DE RESPEITO. A classe médica não se nega a trabalhar em lugares remotos por não conseguir diagnosticar doenças sem equipamentos. Não, a classe médica apenas se nega a compactuar com essa falta de respeito, com essa roubalheira. Ninguém aqui nunca foi contra os cubanos, ninguém disse que eles eram ruins (apesar de usarem carimbos pré-moldados para prescrever medicamentos). A questão aqui não é contra os cubanos. A questão é contra o seu governo, que recentemente anunciou um corte de 25% nos gastos em SAÚDE na Bahia. Pessoas continuam a morrer nas filas, e o seu governo do PT cortou os gastos em saúde. O governo também parece que não quer educar os seus jovens.. Cortou também o orçamento para o FIES! Afinal, para que vamos educar a população? Se educarmos os ignorantes (ignorante no seu sentido denotativo, que quer dizer aquele que desconhece), eles mesmos vão nos tirar do poder! Então vamos cortar também os gastos com a educação. Menos dinheiro para saúde e educação, mais dinheiro para o bolso de cada um deles. Mais dinheiro para a presidente (presidentA nunca existiu). Fazendo uma rápida analogia, o senhor também faria parte dos "médicos da elite". Afinal, o senhor é professor do xxx, não é mesmo? Trabalha na capital, no ar condicionado, tem estacionamento para colocar o carro, piloto na mão, cadeiras confortáveis, sala dos professores pra tomar um cafezinho, fazer um lanche.. Agora me pergunto, o senhor acha que as crianças do interior têm acesso à educação? Será que faltam professores ou faltam condições? Se faltam condições e isso não deve ser considerado um problema, por que então não temos professores como o senhor dando aula no meio do sertão, debaixo do calor, sem cadeiras, sem ar condicionado, sem quadro e sem papel e caneta na mão? Talvez seja hora de tentar refletir um pouco sobre isso; talvez seja hora de mostrar o que acontece de verdade no país aos seus alunos, aos futuros médicos, advogados, professores, engenheiros.. Futuros adultos. E formadores de opinião.


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